"Seja um
poema, uma tela, ou o que for, não procure ser diferente.
O segredo está em ser indiferente."
Mário Quintana
[[[
RETRATO 3 X 4 ]]]
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obsessão ::
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cinismo ::
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paixão ::
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poesia ::
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escárnio ::
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sonho ::
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solidão ::
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evolução ::
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melancolia ::
"Agora
sou um só, o mais forte, aquele que pode dizer sem medo
e responder quando perguntado - EU"
Aguinaldo Silva
[[[
LITERATURA ]]]
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Caio F. Abreu
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J. Cortazár
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Fernando Pessoa
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Eugénio de Andrade
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Mario de Sá-Carneiro
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CINEMA ]]]
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[[[
MÚSICA ]]]
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Zeca Baleiro
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Chico César ::
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Aimee Mann ::
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Cartola ::
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Caetano Veloso ::
"Agradeço
essa injustiça, essa afronta que me despertou, e cuja sensação
viva lançou-me também tamanha força e tamanho gosto por
meu pensamento que, por fim, meus trabalhos tiveram o benefício
de minha cólera; a busca de minhas leis tirou proveito do
incidente"
“Desta vez me meti em um café; consegui uma mesa junto à janela. Em um lapso de uma hora e quinze minutos, passaram exatamente trinta e cinco mulheres interessantes. Para me entreter, fiz uma estatística sobre o que me agradava mais em cada uma delas. Registrei os dados em um guardanapo de papel. Eis o resultado. De duas, agradou-me mais o rosto; de quatro, o cabelo; de seis, o busto; de oito, as pernas; de quinze, o traseiro. Ampla vitória dos traseiros.”
Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Steve Wonder, ó minha parceira.
Você é pra mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna pra Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby pra Waly Salomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.
Só você,
Mais que tudo e todas, é só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.
Mister Superficial
Mister "I am so special"
Mister "Something's wrong"
Let me sing you a song!
Mister Unhappy and Angry
Mister Sad and Dissatisfied
Mister controlling and mind fucking
Grumpy and Complexity
Mister cool, mister often cruel
You're so unhappy and lonely
Always saying "something is wrong with me"
Well, something is wrong with you, man
because ever since it's over between you and I
I feel so... amazing!
Mister Unhappy...
Why didn't you let me be?
Yes, I received your letter yesterday
(...)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they're quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can't read too good
Don't send me no more letters no
Not unless you mail them
From Desolation Row
"Eu a amava, em suma. E era infeliz. Mas como poderia ela algum dia entender essa minha infelicidade? Há aqueles que se condenam ao
cinzento da vida mais medíocre porque tiveram alguma dor, alguma desgraça; mas há também aqueles que o fazem porque tiveram mais sorte do que poderiam suportar"
Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecem mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito, (em parte), em vários romances como protagonista de vários enrdos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.
Engoli uma fumaça ( nunca vi igual aquela)
Fui correndo para casa (comer pão com mortadela)
Chegando na minha casa (mortadela la não tinha)
E fiquei empapussado ( de açucar com farinha)
A experiência me ensinou que, quando uma situação se torna confusa e incompreensível ao ponto de ter algo de sinistro, não se deve ir logo jogando a culpa no diabo antes de averiguar se não houve alguma mentira humana na origem da mixórdia toda. Como é da natureza da mentira ocultar-se a si própria, depois ocultar a ocultação e por fim apagar da memória todos os rastros da sua origem, não existe mentira isolada: há uma progressão geométrica de falsificações e aquilo que parecia uma toca de coelho acaba por se tornar uma cratera imensa, um abismo insondável.
Não que o diabo não tenha participação nenhuma na coisa, mas às vezes todo o seu trabalho consiste em inspirar a mentirinha inicial, deixando o resto da arquitetura abissal por conta da estupidez humana.
Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.
Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir;
e dela não me conformo.
Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.
Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes.
Pelas tuas loucuras todas, minha vida.
Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.
Amo teu jogo triste.
As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.
Eu amo a tua alegria.
Mesmo fora de sí
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido
Se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.
Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.
Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.
Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.
Amo teu sistema de vida e morte.
Eu te amo pelo que se repete
e que nunca é igual.
Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.
Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.
Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila.
...para o Dr. Dent, de Londres (...), força de vontade realmente não existe, você tem que chegar a um estado mental em que não quer ou não precisa da droga que for.
Quando criança, tinha visto um vagabundo se aproximar para pedir um pedaço de torta à sua mãe, e ela o deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada, o garoto, ainda pequeno, perguntou:
- Mãe, quem era esse homem?
- Ora, um vagabundo.
- Mama, quando crescer também quero ser vagabundo.
- Não diga bobagens, menino. Um Hazard não nasceu
para isso. - Mas ele jamais esqueceu aquele dia, e quando cresceu, depois de jogar futebol durante uma curta temporada na LSU, se tornou, de fato, um vagabundo.
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos
O álcool leva à previsibilidade. (...) Na verdade, o que ele mais gosta nesse barzinho sujo, um dos vários que freqüenta, é que ninguém jamais o vai procurar ali, nem incomodá-lo. Ele pode ver tudo e andar por onde quiser, que continua sozinho com sua bebida. Mas isso agora é quase dolorosamente uma força de expressão; há muito tempo ninguém o procura ou se incomoda com ele em lugar algum.
Eu não tinha interesses. Não tinha interesse em nada. Não tinha idéia de como iria escapar. Pelo menos, os outros tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo que eu não entendia. Talvez eu estivesse por fora. Era possível. Eu freqüentemente me sentia inferior. Só queria ir pra longe deles. Mas não havia nenhum lugar para se ir. Suicídio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho ainda. Sentia vontade de dormir uns cinco anos seguidos...
Se te casas, arrependes-te; se não te casa, arrependes-te também; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara.
O Homem tem dois pecados capitais, dos quais decorrem todos os outros: a impaciência e a preguiça. Por impaciência foi expulso do Paraíso, e por preguiça não volta para lá. Talvez não haja senão um pecado capital: a impaciência. Por impaciência foi expulso e por impaciência não volta.
Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se.
E se ele me disser que o seu figado sofre com isso respondo: o que é o seu figado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.
Perguntaram a Olavo Bilac por que amigos dele fundaram um clube com a pretensão de serem imortais. Ele disse: somos imortais porque não temos onde cair mortos!
O amarelo viscoso escorrendo pela boca, um cheiro forte de álcool, secreções com diferentes texturas misturadas a peles de tomate e grãos de arroz, e alguma coisa lá no fundo, que vem expulsa das entranhas, cor estranha, jambo encarnado e náusea - nunca mais, nunca mais, nunca mais beber, fumar, nunca mais, nunca mais tomar drogas, esses comprimidos, nunca mais. Não se calcula tempo, mas é infindo, o tempo em que sua cabeça mergulha em direção ao vaso sanitário e você implora piedade aos céus, enquanto os intestinos anunciam sua morte iminente, nunca mais, nunca mais.
Pois quando o jorro do vômito cessa, e o alívio chega, e você lava a boca, o resto e os cabelos, e se olha no espelho, e pode se considerar um sujeito definitivamente alterado, para o resto dos seus dias, assim como me considero, quimicamente alterada para sempre, não existe nunca mais.
Enquanto eu não precisei do dinheiro de ninguém e sabia limpar a minha sujeira, ninguém achou que eu era louca. Um dia eu passei da conta, não tinha onde morar, comecei a deixar tudo sujo. Aí minha avó me internou. Se você paga as suas contas e limpa a sua própria sujeira, pode enlouquecer à vontade. Com mais dinheiro você pode pagar alguém para limpar a sua sujeira. E com muito dinheiro você pode dizer e pensar qualquer coisa.
Achei que ela estava certa. Minha mãe acredita em tudo, em espíritos, em outras vidas, horóscopo, numerologia, búzios, cartomantes. Faz promessas para santos, tem amuletos de umbanda, fita do bonfim, faz cromoterapia, análise, acumpuntura, aromaterapia, toma floral, homeopatia e floral, lê livros de auto-ajuda, bebe e fuma. Meu pai também bebe e fuma, mas não acredita em nada, remédio, religião, política, diz que é cada um por si. Ele só acredita em livre mercado e pena de morte. Os dois pagam as contas e têm uma empregada para limpar a sujeira, está tudo certo.
Não tenho plantas na minha casa. Não consigo fazer com que elas fiquem vivas. Algumas nem esperam morrer, cometem suicídio. Uma vez, cheguei em casa e encontrei uma planta pendurada numa corda, com o vaso de xaxim caído no chão. Tinha um bilhete de despedida dizendo: "Detesto você e seus CDs."
Wendy: - Onde você mora agora?
Peter: - Com os meninos perdidos.
Wendy: - Quem são eles?
Peter: - São crianças que caem dos carrinhos de bebê, quando a babá não está olhando. Se ninguém reclama por eles em sete dias, são enviados para a Terra do Nunca. Eu sou o capitão.
Wendy: - Deve ser muito divertido.
Peter: - É, mas a gente é um pouco só.
Só que desta vez por mais nojeiras que imaginasse sobre meu corpo caído lá embaixo, não sei por que, a vontade de saltar continua. Mas eu resisto. Não que alguém fosse sentir muita falta minha ou se achar, sei lá, sacaneando com a minha morte. (...) Ninguém. Eu comecei a enumerar nos dedos quem poderia sentir a minha falta: sobraram dedos. Todos estes que estou olhando agora.
E é isso que você precisa. Cair de febre, se contagiar pela febre de alguém, até que você se queime e sinta algo real e definitivo que te mova. Você sabe, ela sabe e todo mundo sabe que você sabe qual caminho seguir. E já está mais do que na hora de partir. Você está precisando disso. E você sabe que a hora de partir chega, querendo ou não. O que você escolhe?
Desde o dia em que passei
Numa esquina
Pisei num despacho
Entro no samba meu corpo tá duro
Bem que procuro a cadência e não acho
Meu samba meus versos, não fazem sucesso
Há sempre um porém
Vou à gafieira , fico a noite inteira
No fim não dou sorte com ninguém
É mas eu vou num canto
Vou num pai de santo
Pedir qualquer dia
Que me dê uns passes
Um banho de erva e uma guia
Está aqui o endereço
O senhor que eu conheço
Me deu há tres dias
O mais velho é batata
Diz tudo na exata
É uma casa em Caxias.
Nunca antes percebera que a vida está sempre falando com uma voz que responde às perguntas que você vive fazendo sobre ela; nunca detectara conscientemente ou reconhecera esses tons até agora, quando a vida estava algo que jamais dissera para ele, que era "sim".
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem, porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
O que vive incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem, como aquele rio.
Como todo real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
[...]
Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não pode comer
a fome que a vê.
...tinha agora a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. Esta opinião é um dos efeitos daquele mau costume de envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Há outros, também ruins, nenhum pior, este é o péssimo. Deixa lá dizerem filósofos que a velhice é um estado útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito aceita o estilo.
vamos supor
que a vida seja um velho que carrega flores na cabeça.
a jovem morte está sentada num café,
sorridente, uma moeda entre
o indicador e o polegar.
(falo para você "compre umas flores"
e: "a Morte é jovem
a vida usa calças largas
a vida gagueja, a vida tem barbas" e
falo pra você que se fecha no silêncio ¿ "Tá vendo
a Vida? está lá e aqui,
é isto ou aquilo
ou nada ou um velho quase
adormecido, sobre a cabeça
flores, sempre gritando
pra ninguém alguma coisa sobre as
rosas e tulipas,
sim,
Ela vai comprar?
os belos ramalhetes ¿ ei, escuta,
tá de graça")
e meu amor lentamente respondeu acho que sim. Mas
acho que vejo mais alguém ali
uma senhora, seu nome é Depois,
está sentada ao lado da jovem Morte, é bonita;
as flores gostam dela.
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora...
* compre um livro fracassado que conta uma vida de homem fracassada;
* compre um livro que você já tem e nunca leu;
* passe toda a sua tarde esperando uma amiga; ela chega e fica 10 minutos;
* espere até às 19 horas para conseguir comprar um ingresso - e não consiga;
* termine a noite num bar onde não o atendem e com um pervertido sentado à sua mesa.
As mais belas obras dos homens são obstinadamente dolorosas. Como seria a descrição da felicidade? Só se pode contar aquilo que a prepara, e o que a destrói.
É uma piada.
Duas velhinhas em um hotel fazenda na montanha:
Uma diz: "A comida aqui é um horror"!
A outra diz: "Eu sei, porções minúsculas".
É assim que eu vejo a vida:
cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza e acaba rápido demais.
Os acontecimentos não mudam as pessoas. O cara otimista e bem-humorado será, seis meses depois de um acidente, um otimista numa cadeira de rodas. Já o cara chato e arrogante será um arrogante com piscina e carro novo, depois de ganhar na loteria.
- Vocês acham que o mau humor é um vício; parece-me tanto exagerado.
- Absolutamente - repliquei; - pois é justo que se dê esse nome a uma coisa que nos torna nocivos a nós próprios e aos outros. Não basta a impossibilidade de uma criatura ser feliz? É ainda preciso estragar o prazer que outros podem achar em si mesmos? Aponte-me um homem que, estando de mau humor, tenha a coragem de ocultá-lo, de sofrer sozinho, sem perturbar a alegria dos que o cercam? Mas o mau humor não seria antes uma irritação íntima deviada ao sentimento da nossa própria insuficiência, um descontentamento em relação a nós mesmos, ao qual se junta sempre a inveja espicaçando uma vaidade idiota?
Inferno?!! Você não sabe o que é inferno! (...) Inferno não é ser espancado, esfaqueado ou exibido pra um júri de viados! Inferno é acordar toda manhã e não saber por que tá vivo, por que ainda tá respirando.
Estou diante de uma deusa. Ela está dizendo que me quer. Não vou nem perder mais tempo pensando no motivo de tanta sorte. Ela tem o perfume que os anjos devem ter. A mulher perfeita. A deusa.
Vejo o sol; vejo a sombra; vejo a linha da sombra deslocar-se; tenho tão pouco em que pensar, que fico observando-a. Estou ainda muito fraco: respiro com dificuldade; tudo me cansa, até a leitura; aliás, ler o quê? Ser me ocupa bastante.
Estava meio bêbada, a maior parte do tempo. Achava que anestesiaria a dor e a raiva embriagando-me. Mas não ajudava, realmente. Apenas me sentia mais ou menos perdida e confusa. E depois, quando ficava sóbria, nos poucos minutos que demorava para tomar minha próxima dose e os efeitos se fazerem sentir em mim, a depressão era terrível. Muito, muito ruim.
Nunca pensei que um dia diria isso, mas a bebida não é realmente a solução.
Drogas, talvez.
Mas não bebida.
(...) Palavras que dizem coisas duras, secas, simples e irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre.
A felicidade, a vida de prazeres e o triunfo podem ter exterioridade rudes e essência vil: a dor é o que de mais sensível existe. Nada existe no mundo espiritual a que a dor não possa atingir com sua aterradora e sutilíssima pulsação (...).
A dor é uma ferida que sangra ao roçá-la qualquer mão que não seja a mão do amor e que também sangra, embora sem fazer sofrer, quando esta a roça.
Soube, então, que a vida não respeitava circunstâncias. A força que atira em nós os desastres não diz: "Bem, não darei a ela aquele caroço no seio antes de pelo menos um ano. É melhor deixar que se recupere primeiro da morte da mãe." A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade.
Nunca sucumbi a (...) nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno...
Começaram lentamente, e depois mais rápido. Giravam; tudo girava em torno deles: os candeeiros, os móveis, as paredes e o sobrado, como um disco sobre um eixo. Junto das portas, o vestido de Ema colava-se pela orla à calça do par; as pernas de ambos cruzavam-se reciprocamente; ele baixava o olhar para ela, ela erguia o olhar para ele; cheia de languidez, parou. Recomeçaram e, com um movimento mais rápido, o visconde, arrebatando-a, desapareceu com ela até o fim da galeria, onde Ema, ofegante, esteve a ponto de cair, pelo que, por um momento, apoioi a cabeça no peito dele. Depois, continuando a rodopiar, porém mais calmamente, reconduziu-a ao seu lugar; Ema então se inclinou para a parede e pôs a mão diante dos olhos.
Quando os abriu de novo, estava no meio da sala um dama, sentada num banco, com três valsistas ajoelhados a seus pés. A dama escolheu o visconde, e o violino recomeçou.
- Você quer mesmo passar o resto da sua vida assim?
- Não, é claro que não. Você está sugerindo alguma alternativa?
- É, acho que estou.
- E não quer me dizer qual é?
- Você sabe qual é?
- É claro que sei. Mas quero que você seja a primeira a falar.
- Você quer se divorciar?
- Quero que fique registrado que não fui eu que falei nisso.
- Tudo bem.
- Foi você, e não eu.
- Eu, e não você. Vamos... Estou tentando conversar sobre uma coisa triste e adulta, e você fica aí marcando pontos.
- Para poder contar a todo mundo que você pediu o divórcio. Sem mais nem menos.
- Ah! Foi completamente sem mais nem menos, não foi? Não houve sinal algum disso, porque a gente vivia num paraíso de felicidade. É nisso que você está interessado? Em contar a todo mundo? É isso que é o mais importante para você?
- Assim que a gente desligar, vou ligar para todo mundo. Quero dar a minha versão antes que você possa dar a sua.
Envolvida nos teu braços
Eu me sinto um carneirinho
A sua temperatura
Aquece o meu corpo todinho
Seu jeito de amar me faz imaginar
Que eu sou uma nuvem a flutuar
E esse seus olhos de luzes
É só olhar pra eu me apaixonar
Lembro-me de levantar certa manhã ao amanhecer. Havia tamanha sensação de possibilidades, sabe essa sensação? Eu me lembro de ter pensado: 'Este é o início da felicidade. É aqui que começa. E, sem dúvida, sempre haverá mais.'
O mundo acabou e nem o tempo prosseguiu. Os minutos não passavam porque não existiam, como não existiam os momentos ou os olhares. O infinito era o infinito de não ser nem infinito, nem nada. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam cadáveres. Tinham morrido a memória da morte. As crianças morreram e isso, que era a única coisa pela qual valia a pena chorar, não era lamentado por ninguém, porque já não havia dor, já não havia lágrimas, já não havia olhos ou peito para chorar. José e a sua mãe, Salomão e a sua mulher, o demónio, a cozinheira viúva, todos morreram, como pontinhos de uma multidão gigante a morrer no mesmo instante sem poder entender que morria e que morria tudo. Todos desapareceram e não deixaram nada, e não deixaram sequer o pequeno nada que existe dentro do nada. Não deixaram sequer os cemitérios inteiros de mortos, pois todos eles desapareceram ainda mais de tudo, todos eles morreram a sua segunda morte, ainda mais definitiva. A voz que está fechada dentro de uma arca calou-se para sempre e, das suas palavras, nem o sentido, nem o silêncio subsistiu. O homem que está fechado dentro de um quarto sem janelas a escrever parou de repente a meio de uma frase e o fim, para ele, foi a tinta que desapareceu das páginas que tinha vivido, foram as folhas de papel que fugiram de si próprias e se tornaram o mais absoluto vazio de tudo, foi a memória que se transformou nem sequer em ar, nem sequer em vento. O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.
É mais estranho do que podia imaginar
Atreve-se a olhar?
Consegue pensar em mim?
Este gárgula repugnante
Que arde no inferno
Mas que, secretamente,
Anseia pelo paraíso
Secretamente, secretamente (...)
O medo pode se transformar em amor
Você aprenderá a olhar,
A encontrar o homem
Por trás do monstro
Desta repulsiva carcaça
Que parece um animal
Mas que, secretamente,
Sonha com a beleza
Secretamente, secretamente
Dizem que tô louco
Por te querer assim
Por pedir tão pouco
E me dar por feliz
Em perder noites de sono
Só pra te ver dormir
E me fingir de burro
Pra você sobressair
Dizem que tô louco
Que você manda em mim
Mas não me convencem, não
Que seja tão ruim
Que prazer mais egoísta
O de cuidar de um outro ser
Mesmo se dando mais
Do que se tem pra receber
E é por isso que eu te chamo
Minha flor, meu bebê
Dizem que tô louco
E falam pro meu bem
Os meus amigos todos
Será que eles não entendem
Que quem ama nesta vida
Às vezes ama sem querer
Que a dor no fundo esconde
Uma pontinha de prazer
E é por isso que eu te chamo
Minha flor, meu bebê
Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu
Não sei por que, mas desde a primeira vez que a vi, fiquei logo sabendo que ela era única. (...) Costumava sonhar acordado a seu respeito, inventando histórias nas quais eu a encontrava, em que fazia coisas que ela admirava, em que me casava com ela e tudo mais.
Enquanto eu lugar-comum você especial (...)
Enquanto eu média luz você carnaval...
Enquanto você no olimpo ai de mim mortal
Enquanto você brisa eu vendaval (...)
Enquanto você monumento eu pedra de sal
Enquanto você na folia eu no funeral(...)
Enquanto você Branca de Neve eu Lobo Mau
Você dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão
Dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão
Pois a máquina da morte, construída por mim mesmo, vai abrir meu peito e esgaçar ele todinho, esgaçar mais um pouquinho, até ficar aparecendo tudo lá dentro, os sentimentos sentindo, as veias se abrindo, o sangue correndo, e vai destampar meu estômago, pra deseninhar as tripas, uma por uma, como se fosse um novelo, vai desemparelhar um pulmão do outro, separando assim, pra mostrar o que é que tem no meio, e então vai arrancar meu coração e jogá-lo para a platéia, salpicando o mundo de sangue, enquanto, aí sim, eu vou morrendo aos pouquinhos, sofrendo até morrer da morte mais linda que alguém já morreu na vida. Vou morrer de amor, no meio do sertão, nos braços da seca, com a quentura fervilhando as idéias, enquanto tiver idéia, a vida desistindo de viver, indo embora, a vista turvando, o juízo evaporando, até o finalzinho, aquela hora em que a pessoa pensa com ela mesma, e agora, hein? Então não pensa mais nada e acabou-se.
-Você agora é minha e não quero mais saber de bobagens.
-Uma propriedade? (...)
-Não, um amor. Meu amor está impresso em você para o resto de sua vida. Os meus direitos vêm disso.
Só com você poderia ser...
Só poderia ser
Sempre com você
Não sei se é moderno ou careta
Querer um amor tão eterno
Só com você
Tudo é tudo de bom...
Você é tudo
Você é tudo
Você é tudo de bom
Não adianta planejar nada na vida, (...) eu não planejo nada, descobri logo que é besteira. Você pensa que vai ser isso ou aquilo, que vai estar em tal ou qual lugar em tal ou qual época, que não vai se meter em tal ou qual coisa, e de repente a vida o põe exatamente na situação que o sujeito nunca concebeu para si.
- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu.
Por onde anda a gente quando dorme
pra acordar com esta cara disforme
de quem fez o que não devia?
E este gosto na garganta
é o resto de que janta
de que secreta ambrosia
de que gim ou malvasia?
E se só estivemos no leito
por que acordar deste jeito
com este olhar de pouco assunto?
Pra onde vai meu ser noturno
pra me deixar assim soturno
- e por que não me leva junto?
Os aniversários deveriam ser suspensos em anos como este: deveria haver uma lei, dos homens se não da natureza, para que você só pudesse envelhercer quando as coisas estivessem correndo bem. Para que eu quero ter um ano a mais agora? Não quero. Não é conveniente. A minha vida está congelada no momento, e me recuso a ficar mais velho. Por favor guardem todos os cartões, bolos e presentes para serem usados numa outra ocasião.
Pense no seguinte... imagine daqui a 10 ou 20 anos, você já casada, só que seu casamento já perdeu aquele encanto. Começa a culpar seu marido. Começa a pensar em todos os homens que conheceu e o que teria acontecido se tivesse se casado com um deles. Eu sou um deles. Veja isso como uma viagem no tempo. Do futuro ao passado. Assim você veria o que teria perdido. Seria um grande favor para você e para o seu futuro marido, perceber que não perdeu nada pois eu também sou uma bolha. E você verá que fez a escolha certa e está feliz.
Os créditos finais diziam: "Baseado na vida de Fulano de Tal"
Aquilo o impressionou mais do que filme. E o fez pensar: "e se tivessem se inspirado em minha vida?". Quis começar o esboço de um roteiro.
Parou num bar e pensou por três chopes nos grandes momentos que vivera. Mas nada pareceu cinegrafável. Tudo muito simples e mecânico, morno e desinteressante. Projetou o seu futuro, e não havia nos próximos dez anos nenhuma seqüência fascinante.
Ó tu, moço ou jovem que te julgas abandonado pelos deuses, saiba que, se te tornares pior, irás ter com as piores almas, ou, se melhor, juntar-te-ás às melhores almas, e em toda sucessão de vida e morte farás e sofrerás o que um igual pode merecidamente sofrer nas mãos de iguais.
É esta a justiça dos céus.
PASSEI TODA a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la.
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
São três da madrugada
E meu coração vazio
Não vale, nunca valeu, nem
Nunca valerá nada
E é até muito bom
Você não dar as caras,
Nem fazer bocas sensuais,
Nem me ligar às três da madrugada...
Muita coisa mudou, amor.
Onde foi que me perdi de mim?
Nos banheiros, desesperado, tentando me recompor
Para retornar à mesa e aos amigos?
Nas pontas atiradas pelas janelas
Dos carros nas estradas?
Nos copos de vodca?
No sexo? Nas drogas? No rock'n'roll?
Quando foi exatamente que minha vida se obscureceu?
Depois de que reunião? Em que aparelho?
Depois de qual beijo?
Em que sessão de psicanálise
Exorcizando amores fracassados?
Em que medo sentido?
Só sei que ficou um buraco
no meu peito
só sei que me sinto
vagamento culpado
E tenho uma impressão de nunca mais
na garganta
Abandono alegremente tarefas mornas, escrúpulos razoáveis, condutas reactivas, impostas pelo mundo em benefício de uma tarefa inútil, originada num Dever incontestável: o Dever de amor. Faço discretamente coisas loucas; sou a única testemunha da minha loucura.
Cruzo-me, ao longo da vida, com milhares de corpos; desses milhares posso desejar umas centenas; mas, dessas centenas, não amo senão um. O outro por quem estou apaixonado mostra-me a especialidade do meu desejo.
Tentem separar as pessoas que vocês encontrarem em uma das quatro categorias da vida - casadas e felizes, casadas e infelizes, solteiras e desesperadas - e verão que não conseguirão. Ou melhor, até conseguiriam, mas não teriam confiança em suas escolhas. Isto me parece incrível. A coisa mais importante da vida, e não dá para saber se as pessoas a têm ou não. Isto é errado, não? As pessoas que são felizes deveriam parecer felizes, em todos os momentos, não importa quanto dinheiro tenham ou quão desconfortáveis sejam seus sapatos ou se seu filho anda dormindo pouco; e as pessoas que estão indo bem mas ainda não acharam sua alma gêmea deveriam parecer, sei lá, bem, mas ansiosas também, como Billy Crystal em Harry e Sally; e as pessoas que estão desesperadas deveriam usar algo, uma fita amarela talvez, o que lhes permitiria ser identificadas por pessoas igualmente desesperadas. Quando eu não estiver mais desesperado, quando tiver esclarecido tudo isto, prometo a você aqui e agora que nunca mais reclamarei (...) da falta de alma na música pop moderna, nem dos recheios avaros servidos na lanchonete (...), nem de mais nada. Sorrirei beatificamente o tempo todo, de puro alívio.
Diz-se que quem é feliz no amor
No jogo é infeliz
Mas de quem faz do amor
Um jogo o que é que se diz
Eu não sei jogar e ela é a rainha
Como poderei pensar que ela é minha?
(...)
Eu já fiquei como Erasmo
Sentado à margem das estradas
À espera de uma palavra da boca
Um gesto das mãos
Mas essa deusa só diz nãos e
Nuncas e necas e nadas
Ela só sabe de paus e de ouros
De copas e espadas
Não confio em pessoas que não fazem nada imperfeito. (...) Imagine a pessoa que não fuma, não bebe, não usa drogas, não come carne, é socialista, anti-americana, ecologista, enfim, não-faz-nada-para-ser-preso -aos olhos da média da nossa sociedade. Nada disso vem sozinho. É todo um complexo de idiotice que se apresenta em conjunto, com mais ou menos itens do menu. Quero distância desses tipos...
Às vezes sou seu clone
E você é o meu
Não temos o mesmo nome
Mas nossa vida se perdeu
Em encontros e desencontros
Do mesmo sopro
Que atravessa eu e você
Se estou contigo
É porque estás comigo
E nós não podemos nos perder
Acho que nunca me importei com nada na vida. Nem com a profissão, nem com as crianças, nem com ninguém. Às vezes, cheguei a pensar se não haveria algo de errado com os meus sentimentos. Não podia entender por que nada realmente me fazia doer, por que nunca realmente me sentia alegre. Agora, eu sei que a decisão está aqui! Eu sei que nós vamos nos magoar um ao outro, eu sei disso, mas não tenho medo. Eu sei também que nós vamos dar muitas alegrias um ao outro. E eu choro, choro de receio que o tempo seja curto demais, que os dias passem rápido. Afinal, nada é imutável.
- ...como é que a gente faz pra entrar num convento? (...) Estava começando a estudar a idéia de ser monge. - É preciso ser católico e tudo? (...) tá. Não vou mesmo entrar pra droga de convento nenhum. Tenho tanta sorte, que ia acabar entrando para um convento cheio da pior espécie de monges. Todos uns sacanas imbecis. Ou só sacanas
Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto
A guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum
E eu sou ninguém
Eu tento entender a felicidade mas nunca chego à conclusão satisfatória. Eu não quero que você faça nada. Quero que você me goste. Acho que estou precisando. Preciso que alguém me goste hoje.
(...) estou feliz de estar aqui com você. (...) estou feliz por você existir. (...) Talvez eu a ame. Talvez eu a ame muito. Mas é sem dúvida uma razão a mais para ficarmos nisso. Acho que um homem e uma mulher se amam mais quando não vivem juntos e quando sabem um do outro apenas uma coisa: que existem, e quando ficam reconhecidos um ao outro porque existem e porque sabem que existem. E isso basta para que sejam felizes. Obrigado, (...) obrigado por você existir.
A princípio, foi apenas certo desânimo. Depois, o tédio universal diante de todas as coisas. Finalmente o que Unamumo chamava de sentimiento trágico de la vida. De súbito minha cabeça explodiu.
Dor de cabeça, dor no corpo, nas juntas. Tosse. Nariz entupido, tosse, calafrios. Vertigem. Enjôo, astenia (tosse), sonolência, pesadelo. Na boca, gosto de ferrugem, de azinhavre. De sono velho, já dormido, cabo de guarda-chuva. Comprimidos, injeções, bulas de remédio, barba crescida, olhos ardentes, tosse, tosse...
Pobres machos. São tão patéticos em sua luta para esconder o mais possível do corpo. Usam cabelos inexpressivos, não pintam os lábios, vivem a podar as unhas com medo de parecer sujos. Sentem pavor do ridículo. Essa linguagem corporal só tem um significado. As mulheres sabem que são superiores e reafirmam essa verdade por todos os meios, menos com a língua, outra esperteza delas.
(...) Apesar de o Brasil também sofrer com suicídios, os problemas por aqui são outros: para cada pessoa que se suicida, 6 são assassinadas e 4 morrem em acidentes com veículos motorizados. Ou seja, as condições de vida no nosso país ainda têm de melhorar para que as pessoas sobrevivam tempo suficiente para pensar em se matar.
Pra não afundar no poço terrível
Da solidão absoluta
Pra não se perder no caos
Da desordem sem nexo
Os homens precisam
Da ilusão do amor
Assim como precisam
Da ilusão de Deus
Vê se encontra um tempo
Pra me encontrar sem contratempo
Por algum tempo
O tempo dá voltas e curvas
O tempo tem revoltas absurdas
Ele é e não é ao mesmo tempo
Avenida das flores
E a ferida das dores
Tempo Sem Tempo : Zé Miguel Wisnik / Jorge Mautner
- Você está sempre me ignorando. O que vai ser de nós?
- Você quer saber o que vai ser de nós? Você se divertiu comigo? Eu sou um cara engraçado e divertido?
- É.
- Você pode julgar por essa noite. Nós nos divertimos e você (...) vai se lembrar de mim como um cara legal.
Eu não estou lá fora, mas sei que lá brilha a lua. Não sei se lua cheia, lua nova, lua minguante ou lua torturante. Não sei que lua, não sei que rua me acolhe, não sei se esse tipo de vida se escolhe (...)
Não entendo nada da noite, não nasci pra ser da noite e nem do dia. Não acho beleza do nascer do sol, a cor do arrebol é tão sem graça para mim quanto (...) minha própria vida.
...na maior parte das vezes, quando escurece, eu permaneço como se não tivesse escurecido, e depois que amanhece eu permaneço - e só permaneço...
Não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu.
Quando você olha
Quando você olha
Quando você olha no meu olhozinho (...)
O dia pára
A noite anda
Se mal começa o dia finda
A noite clara
A noite cessa
Se o dia manda
E já começa a noite clara
O dia ainda
Olhos santos santos olhos
Olhos de quem quer ver
O que ninguém vê
Quer ver o que ninguém quer ver
Furacão
Avião
Lamparina
Sina
Carnificina
Solidão